O Jovem Poeta Morto

30.9.16

Ainda me lembro de quando ele nos recitava versos. Causava-me nas veias um efeito lancinante; sua interpretação fascinante possuía uma emoção que poderia ir facilmente do romântico ao soturno. Dependendo do que os versos lhe diziam, as suas palavras nossas mentes conduziam. Ninguém melhor do que Neil para recitar seus próprios poemas.
Ele dizia que a branca e pequenina lua era sua maior inspiração, pois ela o observava sem julgá-lo por suas escolhas enquanto escrevia as mais singelas rimas. No entanto, não se preocupava com métricas: sua poesia vinha solta, livre de qualquer rótulo ou regra. Ela vinha na forma mais simples, e, talvez por isso, a mais bela: tão pura como o bem que está nos puros.
Entretanto, não eram todos os ouvidos que se deliciavam com aqueles versos, nem todos os corações eram acalentados por eles. Havia um coração, em específico, que se enojava daquilo tudo e acreditava que a poesia e a arte não passavam de perda de tempo.
Era esse o sr. Perry, homem de negócios, muito ocupado com questões financeiras da vida para apreciar os pequenos prazeres que a mesma lhe tinha a oferecer. Apesar de estar no mundo dos negócios, sua realização pessoal sempre fora tornar-se médico: coisa que não se concretizou devido a falta de verba da família em bancar seus estudos. Não obstante, tornou-se um homem muito bem sucedido, com o propósito de poder financiar os estudos de seu progenitor na medicina e, assim, realizar-se pessoalmente - erro de muitos pais que persiste, infelizmente, até os dias de hoje.
Por esse motivo, Neil escondia sua arte de seu pai o máximo que podia, sendo venerado por estranhos, mas menosprezado pela própria família, visto que sua mãe, por ser uma mulher que deixara a humildade transformar-se em ignorância, acatava fielmente às opiniões do marido.
Por fim, escondido da família, Neil fez testes para um papel em Sonho de Uma Noite de Verão no teatro da universidade, o qual não apenas passara como conseguira o papel principal.
No dia de sua apresentação, a mostra fora estupenda. Neil havia se destacado como protagonista, transferindo sua alma para a arte que tanto amava, de tal forma que fora ovacionado por vários minutos ao final do espetáculo.
O sucesso chegara também aos ouvidos de seu pai e poderia ter sido o suficiente para convencê-lo...
...mas louças foram quebradas na casa durante seu ataque de fúria quando Neil chegara após a peça.
Lágrimas vieram aos olhos do poeta quando este tentou explicá-lo o motivo daquilo tudo, e como a arte era capaz de tornar nossa existência valiosa, deixando de lado a letargia em que vivemos. Mas nada mudaria a decisão de seu pai: O garoto agora estava fora da Welton e seria transferido no dia seguinte para uma escola militar.
Desolado com o futuro tão distante dos seus sonhos, sufocado pelo autoritarismo e cobrança do pai e reprimido pela ausência de liberdade, Neil prefere não existir se não puder viver.
Então ele apanha a pistola do pai...
Se posiciona em frente a janela do quarto...
Sente a brisa gelada da noite na pele pela última vez.
O barulho faz os pais irromperem no quarto e se depararem com a trágica cena. A dor era atroz no coração de ambos, que nunca desejaram tanto que aquilo fosse uma interpretação artística apenas.
E seu pai, que outrora se amaldiçoava por ter um filho com o lado artístico predominante ao lógico, agora lamentava ter sido tão intransigente para com o mesmo. E nem adiantaria tentar reparar seus erros agora: a partir daquele momento, o jovem poeta deixara de existir para sempre, restando apenas a essência de sua alma viva em suas poesias.

***

Conto baseado no personagem Neil Perry, do filme Sociedade dos Poetas Mortos, de 1989.
Comentários
3 Comentários

3 comentários:

Gabriela CZ disse... Responder

Como senti saudade de ler seus contos, Maiti. Adoro a forma como você conduz as palavras. Mas acredita que até hoje não vi o filme Sociedade dos Poetas Mortos? Mas quero muito e seu conto só aumentou minha vontade. Excelente!

Beijos!

Vitor Costa disse... Responder

Sua inspiração foi fantástica, Sociedade dos Poetas Mortos é um filme magnífico. Teu conto ficou digno da obra original. O corpo pode até fenecer, mas a poesia é etérea.

Também escrevo contos e poesias baseados em filmes, se tiver curiosidade http://omundoemcenas.blogspot.com.br/

Beijos Maiti!

Blog Um Velho Mundo disse... Responder

Lembro que vi esse filme e me doeu tanto esse personagem. Seu conto me doeu também, e isso num bom sentido: foi profundo e bonito, talvez como a poesia do Neil :)

Um bom 2017 e muita inspiração para você!

UVM

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